Louise D’Arcens, Macquarie University

Trad. por Luiz Guerra*

Em 1939, um barco saxão do século VII foi descoberto em Sutton Hoo, a propriedade de Edith Pretty em Suffolk. A descoberta deste navio iria transformar a compreensão moderna sobre a Inglaterra alto-medieval, lançando luz sobre a sofisticação de suas práticas funerárias, suas habilidades técnicas e artísticas e suas amplas conexões pela Europa e além.

O novo filme da Netflix, A Escavação (The Dig), dramatiza a descoberta de um achado impressionante. Baseado no romance histórico de John Preston, de 2007, e dirigido pelo australiano Simon Stone, o filme segue Edith (Carey Mulligan) que, perseguindo sua intuição sobre alguns grandes montes em sua propriedade, contrata Basil Brown (Ralph Fiennes) para escavá-los.

Mas ao mesmo tempo em que conta uma história fascinante de arqueologia, A Escavação também reflete um aspecto mais isolado do zeitgeist recente da Grã-Bretanha, nostalgicamente apelando para uma ideia de continuidade com um passado profundo.

Sendo lançado em um momento de crescente hostilidade em relação às populações minoritárias da Grã-Bretanha e à Europa, percebida como uma ameaça à soberania britânica, A Escavação pode ser visto como um filme Brexit: sua romantização de uma continuidade imaginada entre os anglo-saxões e o povo britânico moderno não atinge a complexidade da Grã-Bretanha hoje.

Por amor ou dinheiro

A Escavação coloca Basil, o escavador inexperiente que criava gado, contra os profissionais arrogantes das instituições culturais britânicas.

Ao longo do último quarto de século, a bolha dos estudos medievais tem prestado cada vez mais homenagem a estudiosos amadores que trabalharam, especialmente no século XIX, cujas contribuições vitais foram deixadas de lado à medida que a disciplina se profissionalizou.

Ralph Fiennes no papel de Basil Brown, o arqueólogo autodidata e trabalhador que se encontra em conflito com representantes do Museu Britânico. Larry Horricks/Netflix

Interpretado com um silencioso magnetismo por Fiennes, Basil é a epítome do amador: aquele cuja devoção nasce do amor. Mas o arqueólogo de Cambridge C.W. Phillips (Ken Stott) está determinado a usurpar dele o controle e o crédito, em um confronto que destaca as tensões em curso entre os condados rurais da Grã-Bretanha e seu centro metropolitano.

Suffolk pode ser onde os reis saxões e seus valiosos bens estão enterrados, mas Phillips despreza os esforços de escavação “ad hoc” dos “provincianos”, acreditando que o Museu Britânico é o destino natural para os tesouros.

O capacete Sutton Hoo é um dos quatro capacetes anglo-saxões completos sobreviventes. Andy Rain/EPA

Basil, um escavador requisitado, mas mal pago, valoriza seu faro acima de seus olhos ou mãos: “o passado fala” com ele não através do conhecimento dos livros, mas através do solo.

Ele faz descobertas devido ao seu conhecimento íntimo do solo de Suffolk, conhecimento herdado de seu pai e avô agricultores.

O mito ‘Anglo-Saxão’

A representação de Basil no filme é profundamente atraente, mas no clima político atual exige uma análise mais minuciosa. A Escavação reanima tropos-chave do anglo-saxonismo, a persistente ideologia britânica e estadunidense do século XIX.

Após o fim do domínio romano, a Grã-Bretanha foi o destino de grupos migrantes germânicos que mais tarde ficaram conhecidos como anglo-saxões. Embora eles tenham sido pessoas históricas, sua identidade foi objeto de construções nacionalistas e romantizadas.

No século XIX, historiadores, educadores e políticos usaram o “período anglo-saxão” para se referir vagamente ao período que vai desde o primeiro assentamento desses europeus do norte no século V até a conquista normanda em meados do século XI.

Uma foto de um filme caseiro mostra Basil Brown (à frente) escavando o navio-cemitério em Sutton Hoo em 1939. Wikimedia Commons

Esses comentaristas do século XIX usaram o termo “anglo-saxão” para invocar uma concepção ampla dos ingleses como uma continuação da raça anglo-saxônica: pessoas amantes da liberdade cujas instituições sociais e políticas igualitárias, dizia o argumento, foram destruídas pela imposição do “Norman Yoke”.

The Dig apresenta Basil como um herdeiro deste povo “amante da liberdade”, desafiando a autoridade imposta a ele pelos arqueólogos profissionais.

O período anglo-saxão também foi idealizado como uma época em que a Inglaterra estava livre da nefasta ocupação continental “românica”. Isso se reflete na recusa de Edith e Basil em apoiar a escavação do Museu Ipswich de uma villa romana local em Stanton Chair.

The excavation revealed the imprint of a decayed 27m long ship, with a burial chamber full of riches. Larry Horricks/Netflix

O anglo-saxonismo foi vital para subscrever a supremacia racial branca como um mandato para o poder imperial da Grã-Bretanha e o conceito expansionista de Destino Manifesto, baseado na crença de que os colonos britânicos e brancos nas colônias herdaram um impulso de expansão de seus ancestrais anglo-saxões.

Quando o filho de Edith, obcecado por foguetes, Robert (Archie Barnes) compara os vikings a “pilotos espaciais” porque ambos “exploram novas terras”, vemos o filme se baseando sem crítica em tropos históricos do expansionismo – apesar do fato de que a violência do colonialismo e da ocupação é bem compreendida hoje.

Olhando para trás, não para frente

Um dos pontos mais importantes do filme ocorre quando a esposa de Basil, May (Monica Dolan), insiste que seu marido insatisfeito volte para a escavação. Ela diz a ele:

você sempre disse que seu trabalho não é sobre o passado ou mesmo o presente. É para o futuro, para que as próximas gerações possam saber de onde vieram. A linha que os une aos seus antepassados.

Esse apelo à ideia de uma continuidade genética é estimulante e profundo, mas também excludente e insular. May presume uma uniformidade racial e cultural na Grã-Bretanha, e antepassados comuns a todos.

Mas sua declaração não se destina apenas a inspirar Basil. Ela fala aos espectadores do filme no século XXI, muitos dos quais não veriam um saxão desenterrado como seu antepassado, e podem se perguntar quais “gerações futuras” o filme tem em mente para a Grã-Bretanha.

A Escavação é um drama envolvente e belamente produzido sobre um achado arqueológico revolucionário. Mas, como arqueologia cinematográfica, olha muito mais para o passado do que para o futuro.

*Texto originalmente publicado no dia 14 de fevereiro de 2021, no portal The Conversation. https://theconversation.com/why-the-far-right-and-white-supremecists-have-embraced-the-middle-ages-and-their-symbols-152968?fbclid=IwAR0SZvlZTDDHFS-tlUjsH8-kmKvpWnKcuzuKsdtBMfYZ_zEfN1mwZR9lwko

The Conversation

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