Dr. Ken Mondschein

Trad. por Luiz Guerra*

Uma interpretação do QAnon como um movimento milenarista – um dos muitos que surgiram desde a Idade Média.

Nada sobre o movimento online da pós-verdade chamado QAnon é particularmente novo, mas estamos um tanto perdidos para descobrir do que exatamente se trata. Ele foi comparado a um videogame que coloca seus jogadores como vigilantes em investigações online.

Um breve resumo: os seguidores do QAnon acreditam que o ex-presidente Donald Trump é o líder secreto de um movimento de resistência contra uma conspiração internacional de pedófilos e bebedores de sangue, adoradores de Satanás, cujos membros incluem o presidente Biden, estrelas de Hollywood, Bill e Hillary Clinton, Barack Obama e políticos democratas importantes. Tudo começou em fóruns como o 4Chan, com postagens anônimas do homônimo “Q”, que alegou ter informações privilegiadas sobre Trump, quem, por sua vez, incentivou a atenção.

A insistência de Q em rituais secretos de pedófilos vampirescos é semelhante ao libelo de sangue medieval, em que os judeus eram falsamente acusados de matar crianças cristãs. É também semelhante à caça às bruxas dos primeiros tempos modernos, em que milhares de mulheres inocentes (e alguns homens) foram acusados de adoração ao diabo e torturados. Esses fenômenos também não são novos nos Estados Unidos, dos julgamentos das bruxas de Salem ao caso da pré-escola McMartin (parte do “pânico satânico” dos anos 1980 que também nos trouxe “Dark Dungeons”) ao West Memphis Three de 1993. Os agentes da lei estão, infelizmente, sempre ansiosos para acreditar em tais teorias da conspiração fantásticas e infundadas.

O que QAnon me parece, entretanto, é um bom e velho movimento milenarista. (Não sou o primeiro a notar essa conexão: veja aqui.) Nisto, dificilmente é o único na história estadunidense – ou ocidental. Afinal, essa narrativa está codificada no Cristianismo, assim como a igualdade de todos os crentes e o Juízo Final: O mundo é pecaminoso, governado por poderes das trevas. Os inocentes são perseguidos, mas na décima primeira hora, um salvador virá. Os iníquos serão punidos e os inocentes desfrutarão do céu na terra. A mesma narrativa corre diretamente do Livro do Apocalipse para Jonestown e Heaven’s Gate, e para os message boards do 4Chan.

Os movimentos milenaristas não faltaram na Idade Média, e sua formulação não é estranha aos ouvidos modernos. O tema era a desigualdade de renda: “então acabará a tirania dos reis e a injustiça e pilhagem dos magistrados e seus astutos e injustos julgamentos e artifícios. Então, aqueles que se regozijaram e se alegraram nesta vida gemerão e lamentarão. Então, seu hidromel, vinho e cerveja serão transformados em sede para eles”, escreveu um autor do século XI do Manual de Byrhtferth. Cinco séculos antes, o Falso Cristo de Bourges liderou um exército de foras da lei pelos campos francos, redistribuindo a riqueza dos ricos para os pobres, até ser assassinado pelos capangas do bispo Aurilius de Puy. Três séculos depois, John Ball, o padre renegado que deu credibilidade espiritual à Revolta dos Camponeses de 1381 (que foi comparada ao ataque ao Capitólio de 2021) pregou, “quando Adão cavava e Eva fiava, quem era o senhor?” As semelhanças com os dias modernos não param por aí: como no movimento evangélico, as mulheres muitas vezes desempenharam um papel proeminente como co-profetas e amplificadoras.

Movimentos assim há muito têm o efeito não apenas de esperar o mundo vindouro, mas de revirar a ordem atual. Assim como políticos “responsáveis” descartaram as “mentiras” de QAnon, Santo Agostinho – o mesmo que Joe Biden citou em seu discurso inaugural – baniu tal especulação do pensamento cristão. Mas a ânsia apocalíptica permaneceu, e continua, forte.

O que acontece quando os movimentos milenares são desacreditados? Primeiro, eles atrasam a linha do tempo: as prisões de Q estavam para acontecer enquanto Trump contestava a eleição; então na inauguração, e depois, a saída de Trump da Casa Branca fazia parte do plano. Em seguida, eles são institucionalizados: John Ball gerou os proto-protestantes lollardos, e então a Reforma Inglesa. Denominações modernas bem estabelecidas, como os Adventistas do Sétimo Dia e as Testemunhas de Jeová, começaram como seitas milenares. Podemos esperar o mesmo do QAnon, que é apenas a mais recente iteração do que Richard Hofstadter chamou de “o estilo paranóico na política americana”.

Goste ou não, QAnon é um sintoma, não uma causa, dos nossos males atuais. É como Marx disse da religião, “ao mesmo tempo, a expressão do sofrimento real e um protesto contra o sofrimento real… o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração e a alma das condições sem alma. É o ópio do povo.” E, se a história serve de guia, ele e a insatisfação que expressa estão aqui, de uma forma ou de outra, para ficar.

*Texto originalmente publicado no dia 24de janeiro de 2021, no portal Medievalists.net. https://theconversation.com/why-the-far-right-and-white-supremecists-have-embraced-the-middle-ages-and-their-symbols-152968?fbclid=IwAR0SZvlZTDDHFS-tlUjsH8-kmKvpWnKcuzuKsdtBMfYZ_zEfN1mwZR9lwko

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