Helen Young, Deakin University

Trad. por Luiz Guerra*

The Conversation

Referencias ao medieval inundaram a insurreição no Capitólio dos Estados Unidos no dia 6 de janeiro.

Rudy Giuliani, advogado de Donald Trump e ex-prefeito de Nova York, pedium um “julgamento por combate”; o denominado “Q Shaman”, Jacob Chansley (também conhecido como Jake Angeli), estava coberto de tatuagens nórdicas; manifestantes brandiam uma bandeira com a cruz dos cruzados e a inscrição em latim Deus Vult: um grito de guerra das cruzadas, traduzido por “Deus quer”, que foi adotado pela extrema direita.

Essas apropriações, por parte da extrema direita, da Idade Média europeia são importantes lembretes de que essa recente violência tem uma longa história e alcance global. Símbolos medievais estavam presentes nos comícios e protestos do 2017 Unite the Right (Unir a Direita) em Charlottesville. O manifesto deixado pelo terrorista de Christchurch fazia referências a medievalismos nórdicos e cruzados.

Existem vários outros exemplos além desses.

Extremistas distorcem e se apropriam da cultura medieval para promoverem seus próprios objetivos. Eles adicionam novos significados modernos à imagens e ideias históricas, e as colocam em novos contextos. Para entender o por quê e o como disso, precisamos olhar para o mundo contemporâneo e não para a Idade Média.

Medievalismo e branquitude

A associação da Idade Média européia com os identitarismos brancos reflete mais os racismos modernos do que as realidades medievais.

No final do século XVIII, nações como Inglaterra, Alemanha e França necessitavam de novas histórias de origem, que explicassem a emergente pseudociência das raças e sustentassem as reivindicações imperialistas de superioridade sobre os povos que buscavam subjulgar. 

No século XVIII, europeus brancos desenvolveram novas definições não científicas de “raça”, como neste mapa 1851 das cinco raças de Johann Friedrich Blumenbach. Wikimedia Commons

A Idade Média antes entendida como um período sombrio de barbárie entre os tempos Clássico e Moderno, mas foi repensada como a prova de fogo da branquitude europeia e suas variações como “celta” e “anglo-saxão”.

As raízes das instituições sociais e culturais foram ligadas às ideias de descendência biológica.

Nos anos 1700, a “raça gótica” germânica era entendida, principalmente pelos ingleses e alemães que reivindicavam essa ascendência, como tendo um amor inerente pela liberdade, uma capacidade para a violência e respeito pelas mulheres. Essas supostas qualidades teriam dado origem ao sistema feudal de governo, ao cavalheirismo e a estéticas culturais particulares.

As mesmas ideias foram associadas a uma imaginada “raça anglo-saxã” no Império Britânico e suas colônias. Ideias racializadas sobre liberdade, que vêm dos séculos XVIII e XIX ainda são influentes entre os extremistas brancos.

Na arquitetura, na academia, na literatura, na linguagem e na arte, a branquitude foi associada à Idade Média de formas que ainda ressoam na sociedade e na cultura do século XXI. A arte pré-rafaelita criou uma estética medievalista branca refletida em programas de TV contemporâneos como Game of Thrones (2011-19) e The Last Kingdom (2015–).

Os pré-rafaelitas reimaginaram a Idade Média como uma sociedade branca, como nesta pintura de 1901 de Francis Bernard Dicksee. Bristol Culture, CC BY-NC-SA

Essa associação da identidade racial e cultural branca com a Idade Média europeia ainda é forte na cultura dominante, bem como entre os extremistas. Basta apenas olhar para as várias controvérsias, como a atriz britânica negra Jodie Turner-Smith no papel de Ana Bolena.

Por que os supremacistas brancos usam símbolos medievais?

Extremistas brancos adotam ideias existentes para legitimar suas ideologias e falsas afirmações sobre o passado. Uma sociedade feudal rigidamente estruturada governada pela violência de um rei e da nobreza é atraente para os fascistas.

A maior parte das nações ditas “ocidentais”, incluindo a Austrália, entende a Idade Média europeia como parte de sua herança. Uma cópia da Magna Carta, um documento régio inglês de 1215 muitas vezes considerado como tento consolidado o julgamento por júri e outras liberdades legais, está pendurada no Parlamento em Canberra. Isso torna os símbolos medievalistas úteis em permitir que os extremistas ultrapassem as fronteiras nacionais.

O medievalismo está em toda parte na cultura ocidental contemporânea, desde entretenimento como Vikings (2013-20) e a franquia de videogame Assassin’s Creed, até anúncios de empréstimos imobiliários e de cartão de crédito, discurso político, restaurantes temáticos e muito mais.

Isso ajuda a negar associações extremistas. Símbolos de ódio podem estar escondidos à vista de todos quando seu significado é questionável.

Embora as tatuagens de Chansey (o “Q Shaman”) sejam classificadas como símbolos de ódio pela Liga Antidifamação (ADL), o órgão também observa que às vezes são usadas por “pagãos não racistas”.

Os medievalismos da cultura popular contribuem para essa negação e oferecem oportunidades para a radicalização por meio de interesses comuns.

Derek Black , ex-membro da Ku Klux Klan, começou uma seção dedicada a Senhor dos Anéis e fantasia (uma área importante do medievalismo popular) no site de supremacia branca Stormfront no início dos anos 2000, especificamente com a intenção de recrutar pessoas para a ideologia nacionalista branca. Ele disse ao New York Times que achava que as pessoas que gostavam dos “mitos brancos” do Senhor dos Anéis poderiam ser “excitadas pelo nacionalismo branco”.

Mais recentemente, videogames e sites de jogos – onde os medievalismos são comuns – se tornaram focos de preocupação para juristas e legisladores devido às atividades da extrema direita.

A conscientização é necessária

Nos últimos anos, assistimos a um aumento na violência por extremistas brancos, incluindo – mas não se limitando a – ataques terroristas e assassinatos em massa. É cada vez mais importante estarmos cientes dos símbolos de ódio.

A recomendação da ADL de considerar o contexto ao decidir se um uso específico de um símbolo é “racista” não é necessariamente útil para decidir se ele é um símbolo de extremismo branco, por causa da negação e da exploração de crenças comuns.

Símbolos medievalistas, como aqueles exibidos no Capitólio, foram associados às identidades europeias brancas por séculos. Seu uso por extremistas violentos significa que essa conexão não pode ser negada, ignorada ou considerada uma escolha neutra. Devemos rejeitar deliberada, ativa e explicitamente os significados odiosos e a violência que os acompanha em todos os aspectos de nosso mundo moderno medievalista.

*Texto originalmente publicado no dia 13 de janeiro de 2021, no portal The Conversation. https://theconversation.com/why-the-far-right-and-white-supremecists-have-embraced-the-middle-ages-and-their-symbols-152968?fbclid=IwAR0SZvlZTDDHFS-tlUjsH8-kmKvpWnKcuzuKsdtBMfYZ_zEfN1mwZR9lwko

2 thoughts on “ Por que a extrema direita e supremacistas brancos adotaram a Idade Média e seus símbolos? ”

  1. Obrigada por esta tradução! É um texto muito útil e muito acessível sobre o assunto. Isso só reforça como a Idade Média é relevante para a educação no contexto brasileiro!

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