Recentemente, os pesquisadores do Linhas Clínio Amaral e João Lisbôa publicaram um capítulo de um livro sobre a narrativa acerca de Joana D’Arc pelos Associação Religiosa Arautos do Evangelho, usando a teoria do medievalismo. Trata-se do livro intitulado Ensino de história: teorias e metodologias, o qual pode ser baixado gratuitamente no site da editora (http://revistasobreontens.blogspot.com/p/livros.html). Abaixo, disponibilizamos o texto desses pesquisadores.

Clinio de Oliveira Amaral e João Guilherme Lisbôa Rangel[1]

Em nossa reflexão em 2019, analisamos a Associação Religiosa dos Arautos do Evangelho [AMARAL; RANGEL, 2019]. Na ocasião, o objetivo do trabalho foi, por intermédio da teoria do medievalism, compreender a utilização, realizada por esse grupo, da hagiografia medieval de Raimundo de Penãfort (1175-1275). Nessa análise, demonstramos a existência de um propósito de autolegitimação ao mesmo tempo em que se forjava uma idade média “encantada”, alinhada aos objetivos e aos compromissos missionários da Associação, bem como de seu fundador Mons. João Clá.

Para a discussão encetada agora, embora a análise permaneça sobre o mesmo grupo religioso, aprofundaremos a discussão mencionada anteriormente, e, ao mesmo tempo, demonstraremos, ainda de forma incipiente, a viabilidade de se aplicar as teorias do medievalism à religião (compreendida, aqui, em sua dimensão teológico-dogmática e não tanto prática). Tal propósito aparece em razão do pouquíssimo número de trabalhos sobre essa relação, apesar do caráter codisciplinar do medievalism [Hsy, 2017].  Isso se de deve a vários motivos, contudo, o principal diz respeito à temporalização. Desde o historicismo, a disciplina história estabeleceu uma epistemologia para lidar com a temporalidade histórica, a qual, tende a acentuar a distinção entre os períodos, ao passo que a religião possui uma relação sincrônica com o tempo, que, segundo Richard Utz, seria contratemporal. [UTZ, 2015, p. 17]

Portanto, para Utz, o problema reside nas diferentes formas de se relacionar com o tempo e, ao mesmo tempo, nas diferentes formas de conceitualizar a relação entre passado e presente e na própria relação com o mundo. Assim, ao se considerar o tempo como uma categoria conscientemente temporalizadora, estabeleceu-se uma premissa diacrônica no campo das humanidades, sobretudo, no campo da história. Essa categoria passou a orientar a relação dos historiadores com o passado, sobretudo, a partir do advento da história como disciplina acadêmica no século XIX.

Para Utz, como uma espécie de subproduto do processo acelerado da temporalização e da institucionalização da disciplina história, foi necessário o estabelecimento de diferentes formas de ver o passado, um exemplo disso, foi a constituição de um limite epistemológico, assim, dever-se-ia considerar os limites intransponíveis de uma história não contínua. Segundo esse autor, a teologia teria sofrido pressões no sentido de estabelecer uma historicização e, em função disso, teria estabelecido as cátedras de história eclesiástica, as quais, apesar de seus contornos acadêmicos concebiam a religião e a sua temporalidade de formas completamente opostas ao historicismo. Para corroborar a sua argumentação, Utz cita o exemplo abaixo. 

“A majority of Christians maintain that the person of Christ is spiritually present in the Eucharist. Roman Catholic Christians affirm what they term ‘real presence’ of the body and blood of Christ as resulting from a change of the elements of bread and wine. Lutherans agree with them in a real eating and drinking of the body and blood of Christ except that they define it as happening by sacramental union: ‘in, with, and under the forms’ of bread and wine. Methodists and Anglicans tend to avoid the controversy surrounding the question by relegating Christ’s presence to the realm of religion’s mystery”. [Utz, 2015, p. 15]

Apesar das nuances entre as denominações, Utz insiste em alguns aspectos capazes de, ao que tudo indica, excluir o campo da religião dos estudos sobre o medievalism. Trata-se do desejo comum em estabelecer duas pontes não contínuas no tempo. No centro está o reconhecimento da celebração da Eucaristia como uma memória da santa ceia para demonstrar a natureza sempre eterna de Cristo, ajudando aos crentes estabelecer uma união à divindade. Para o autor, trata-se de seguir Lc 22,19. Assim, por intermédio de formas litúrgicas e do próprio ritual da reconstituição, culmina-se na consecução de uma suspensão temporária da história humana, do próprio tempo humano, por meio da Eucaristia. Em seguida, ele sustenta que o caráter sempiterno da religião seria o principal motivo para a não inclusão da religião nos estudos do medievalism.

“I believe, a good answer to the question why scholars of medievalism studies find it difficult engage in a critical (and ‘critical’ has been synonymous with ‘historicizing’) discussion of religion. (…) Religion, however, because it resists historicity’s epistemological predominance, may remain too difficult a topic for most academic scholars, which is why they responded to this foundational epistemological aporia in variety of ways”. [Utz, 2015, p. 15]

Dessa forma, a questão diz respeito à forma como a religião coloca-se fora do campo epistemológico da historicidade e, de certa forma, da própria história. Após expor o problema da temporalização, esse autor apresenta diferentes autores cujos trabalhados, grosso modo, corroborariam a inviabilidade de pensar a religião por meio da teoria do medievalism.

Antes de voltarmo-nos à análise sobre os Arautos do Evangelho, consideramos importante voltar à contribuição de Utz, especificamente, a sua conclusão, na qual apresenta a sua opinião. “To me, this example leaves no doubt that scholars in medievalism studies have an ethical obligation to investigate and historicize religion and theology, at leaves in all its temporal manifestations” [Utz, 2015, p. 18-19]. Outrossim, por mais desafiador que seja, chegou o momento de encarar o problema de Utz, embora o façamos, neste trabalho, de forma incipiente.

Com base na narrativa, escrita em forma de artigo online, de Mons. João Clá sobre Joana D’Arc publicada no site da Associação Arautos do Evangelho [DIAS, 2020]  pretendemos demonstrar como o agir da Providência, bem como as virtudes da própria personagem, estão circunscritas a um “tempo” que não é o da religião, mas sim o da própria história. A relação por meio da qual o autor do artigo vincula-se à idade média, seria, é o que sustentamos, uma criação/apropriação de uma idade média idealizada capaz de legitimar, por conseguinte, a Associação.

“Surpreendente e variadas são as vias da Providência!”

Com a frase acima, Mons. João Clá atribui o título de seu artigo sobre Joana D’Arc. Um artigo relativamente pequeno, mas que, ao final, apresenta considerações de Bento XVI, realizadas em 2011, sobre a santa, demonstrando a sua relação com a política e como seu exemplo serve ao presente. Pelo título, podemos supor qual mensagem esperar, a saber: Deus age das mais diversas maneiras, ainda que não a compreendamos ou que, no presente, sejamos condenados. Finalmente, esta é a síntese de Joana D’Arc, a santa que em seu tempo foi condenada pela própria Igreja, mas que, séculos depois, teve seus méritos e sua santidade reconhecida.

Em outubro do ano passado, a Associação Arautos do Evangelho foi alvo de inúmeras reportagens que os acusavam de abusos psicológico, sexual, dentre outras acusações [https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2019/10/27/fundador-do-arautos-do-evangelho-da-tapas-em-jovens-em-novo-video.ghtml] e [OLIVEIRA, 2019]. Nesse sentido, não é de surpreender que a imagem e o exemplo, aqui entendido em sua acepção medieval, de Joana D’Arc, tenha sido trazido à tona pela Associação.

Novamente, os Arautos recorrem ao tempo medieval a fim de plasmarem sua imagem ao período, obtendo legitimidade e, ao fim, corroborando sua atuação no mundo, ainda que sob acusações e críticas. Contudo, para além desses elementos, podemos notar a própria construção da idade média operada na narrativa e instrumentalizada, em duas temporalidades, na idade média, e no presente, e ainda na própria história.

Já no começo do texto, Mons. João Clá apresenta alguns topos dos santos medievais como a virgindade, a humildade, a precocidade intelectual, sobretudo, a forma extemporânea em que os santos são, pela Providência, apresentados às suas missões terrenas, entre outros. Todavia, além disso, ele faz questão de demarcar o período em que a vida e os feitos da santa ocorrem, isto é: a idade média. Neste momento, o autor afirma que a Inglaterra dominava o território francês e que Joana foi a escolhida por Deus para libertar a França. Sendo, inclusive, conduzida por vozes do Espírito, a “donzela”, a “imaculada” e a “santa” Joana apresenta-se ao rei Carlos VII a fim de revelá-lo a visão e a missão que Deus lhe havia conferido. Esse, sem acreditar na missão entregue à jovem esconde-se em meio aos seus súditos, disfarçando-se de nobre e colocando uma outra pessoa em seu trono para confundir Joana. Contudo, confirmando sua eleição, Joana dirige-se imediatamente ao rei, embora não o tivesse conhecido preteritamente.

Até este momento da narrativa, duas interpolações importantes são feitas pelo autor do artigo. Na primeira ele “contextualiza” a França daquele período, ou seja, explica as características daquele país à época. Sendo assim, afirma que, naquele tempo, a França “feudal”, “do heroísmo e da cavalheirosidade” encontrava-se sob domínio inglês. Mais à frente, ao comentar o episódio do reconhecimento do rei por parte da santa, ele explica que não havia imprensa ou televisão naquela época e, por isso, Joana não teria como saber quem era o rei.

Ora, tanto a primeira, quanto a segunda interferência do autor, demonstram, por um lado, a concepção que este tem sobre a idade média, especialmente a França, bem como a relação com o presente. Aqui, o presente é acionado não apenas como forma de facilitar a compreensão por parte do leitor, mas também como operação narrativa, isto é, o passado está sendo lido pelo olhar do presente e é para este que aquele interessa, por meio do recurso à exemplaridade, tanto da santa, quanto do período que o autor tem por “verdadeiro”.

Ao dar continuidade ao texto, o autor apresenta os feitos da santa, as suas vitórias até o momento de sua derrota e de sua captura. Embora se defenda como uma leoa contra as acusações, o bispo que a condena, supostamente, havia sido expulso de sua diocese na França porque apoiava os “invasores”. Dessa maneira, Joana é condenada como “vil feiticeira” e, assim, conduzida à fogueira. Neste momento, aproxima-se o auge do relato:

“Deus, que estivera tão presente em todos os combates dela, agora fazia-se ausente. Na manhã da morte, vestem-na com uma túnica infamante e a conduzem numa carreta, de pé, com mãos amarradas às costas, como se fosse malfeitora, em direção ao local do suplício. O povo enche as vias por onde ela passa, e no caminho era lido a sentença, toda feita de infames e falsas acusações. Continuando seu trajeto, a carreta chega à praça onde está armada a fogueira. Santa Joana d’Arc desce e caminha em sua direção. Pode-se bem imaginar a perplexidade que invafia(sic) sua alma: “Mas, então, aquelas vozes não eram verdadeiras? Aquelas vozes teriam mentido? Meu Deus, será que minha vida não foi senão um engano? É a Inquisição que me condena! É um tribunal eclesiástico, dirigido por um Bispo, composto por teólogos e por homens de lei… Será que eu não me enganei, ó meu Deus?!”” [DIAS, 2020] 

Joana é queimada e na narrativa enfatiza-se toda dor e suplício que ela sofreu. Contudo, enquanto o fogo consumia seu corpo, a santa, enquanto morre, pronunciava: “As vozes não mentiram, as vozes não mentiram”. Aqui, mais uma interpolação do autor que faz questão de explicar o sentido das últimas palavras de Joana, qual seja: embora houvesse um mistério naquilo tudo, Joana não estava mentindo porque cumprira a vontade de Deus. Por fim, Mons. João Clá afirma que após o “sacrífico” da santa, o exército inglês não conseguiu resistir ao francês e que 120 anos depois, a última cidade, Calais, sucumbiu à reconquista francesa. Desta maneira, ele encerra dizendo: “O nome de Santa Joana d’Arc permanecerá como uma saga, um mito, um poema, até o fim do mundo: a virgem heroica e débil, que expulsou os ingleses do doce Reino da França e realizou, assim, a vontade de Nossa Senhora, Rainha do Céu e da terra”. [DIAS, 2020] 

Observemos a maneira que se refere ao reino de França (“doce”). Este, ao contrário da Inglaterra, não se converteu a “heresia” protestante [DIAS, 2020]  e, durante a época feudal, como fora dito, figurava como espaço do heroísmo e da cavalheirosidade”.

Através da narrativa sobre Joana D’Arc, o fundador da Associação não apenas responde às acusações e às desconfianças que pairam sobre eles, isto é, ainda que desconfiem da missão deles, a Providência tem várias vias que podem surpreender. Mas também apresenta sua própria compreensão sobre o período medieval. Uma época de heroísmo, cavalheirismo, milagres, ação direta da Providência, a qual, supostamente, estaria fora do tempo. No entanto, é precisamente por meio desta elaboração sobre a idade média feita por João Clá, que a Providência sai da eternidade e entra para a história na medida em que sua ação ocorre em um tempo e espaço circunscrito e, por isso, historicizável.

Nesse sentido, o medievalism aparece como ferramenta profícua para análise dessas apropriações, construções e (re)elaborações que a idade média é alvo. Inclusive, no que se refere à religião. Finalmente, como demonstramos, esta não se descola de um tempo/espaço a ser apresentada e representada. Este tempo, ao ser descrito como “medieval” aparece carregado de sentidos, significados e características que não existem por si só, mas são produto de uma escrita, de uma interpretação sobre a idade média a qual ocorre no tempo e no espaço histórico.

Apesar de consideramos pertinentes as questões sobre a temporalização, consideramos que Utz está equivocado por apresentar aspectos dogmáticos e teológicos como dados intrínsecos à religião. Além disso, é importante considerar que, grande parte do que ele escreveu sobre a temporalização, é, na verdade uma reflexão da própria idade média, notadamente, de santo Agostinho e de são Tomás de Aquino, no que pesem as diferentes reflexões desses autores sobre o tempo e a própria história, eles se preocuparam em demonstrar como Deus, que estaria na Eternidade, e não no tempo humano, inscreveu-se na história humana por intermédio de Jesus Cristo, ou seja, a Encarnação, representa, a inscrição da Eternidade no tempo humano, portanto, na própria história, e os medievais redigiram muito sobre isso.

A Encarnação não deixa de ser um momento de suspensão do tempo e da história, não é ao acaso que a Eucaristia propõe o mesmo. Entretanto, tudo isso é uma reflexão, em grande parte medieval. Assim, o campo da religião seria, em última instância, um terreno propício para se utilizar a teoria do medievalism, grosso modo, notamos que os autores, pelo menos as referências, nessa discussão desconhecem vários aspectos da “religião medieval”. Outrossim, a idade média foi a responsável por lidar com uma série de que chamaríamos de multitemporalidade, inclusive, sobre a própria suspensão do tempo humano durante a Eucaristia, embora sejamos obrigados a deixar, pelas limitações deste trabalho, a reflexão sobre a multitemporalidade para trabalhos futuros.  Mas , como conclusão, sustentamos que, na verdade, as objeções relacionados por Utz acerca da forma como o religioso relaciona-se com o tempo tem suas origens na reflexão medieval acerca dele, portanto, em diversos aspectos do campo religioso, não necessariamente, teríamos a necessidade, de forma explícita, de se vincular ao medievo, a relação com a multitemporalidade já é per se, um aspecto que pode e dever ser analisado por intermédio da teoria do medievalism.

Referências das obras citadas no capítulo

AMARAL, Clinio de Oliveira; RANGEL, João Guilherme Lisbôa. A Idade Média encantada dos Arautos do Evangelho analisada através do medievalism. In: ANDRÉ BUENO; DULCELI ESTACHESKI; JOSÉ MARIA SOUSA NETO; RENAN MARQUES BIRRO. (Org.). Aprendendo História: Ensino e Medievo. 1ed.União da Vitória: Edições Especiais Sobre Ontens, 2019, v. 1, p. 11-18.

DIAS, João Clá. Surpreendente e variadas são as vias da Providência. 2020. Disponível: https://www.arautos.org/secoes/artigos/especiais/santa-joana-darc-a-virgem-heroica-143592 [internet]

Fundador do Arautos do Evangelho dá tapas em jovens em novo vídeo. Disponível em: https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2019/10/27/fundador-do-arautos-do-evangelho-da-tapas-em-jovens-em-novo-video.ghtml [internet]

HSY, Jonathan. Co-disciplinarity. In: EMERY, Elizabeth and UTZ, Richard. (eds.). Medievalism key critical terms. Woodbridge: Boydell & Brewer, 2017, p.43-51.

OLIVEIRA, Thais Reis. Castigos, exorcismos e denúncias: quem são os Arautos do Evangelho. 2019. Disponível: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/castigos-exorcismos-e-denuncias-quem-sao-os-arautos-do-evangelho/ [internet]

UTZ, Richard. Medievalism studies and the subject of religion. Studies in Medievalism. Cambridge: D.S. Brewer, n XXIV, 2015, p. 11-19.


[1] Clinio de Oliveira Amaral é professor associado de história medieval da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Brasil, pesquisador do Linhas (Núcleos de estudos sobre narrativas e medievalismos, cf. https://linhas-ufrrj.org/) e coordenador do LABEP (Laboratório de estudos dos protestantismos). João Guilherme Lisbôa Rangel é mestre e doutorando pelo PPHR-UFRRJ, pesquisador do Linhas (Núcleos de estudos sobre narrativas e medievalismos, cf. https://linhas-ufrrj.org/) e do LABEP (Laboratório de estudos dos protestantismos). O trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de financiamento 001.

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